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Volatilidade do ouro em meio a crises geopolíticas: O que a história nos diz

08 abril 2026

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O ouro recuou em meio à elevação das taxas de juros e ao fortalecimento do dólar, mas a história demonstra que a volatilidade é característica em crises. As fortes margens deixam as mineradoras bem posicionadas se o ouro se estabilizar ou subir.

Insights econômicos e do mercado de ouro mensais de Imaru Casanova, Gerente de carteira, apresentando suas visões exclusivas sobre mineração e os benefícios do ouro para o portfólio.

Principais destaques:

  • A elevação das taxas de juros e o fortalecimento do dólar americano contribuíram para a queda observada em março.
  • A volatilidade em períodos de crise não é algo incomum — episódios anteriores, como em 2008, 2020 e 2022, demonstram que o ouro pode apresentar movimentos bruscos sob diferentes cenários.
  • As empresas de mineração de ouro continuam a gerar fortes margens e fluxo de caixa aos preços atuais.

A volatilidade durante crises não é algo incomum

O desempenho do ouro em março surpreendeu muitos investidores. Mesmo com a intensificação das tensões geopolíticas, os preços do ouro recuaram após testarem brevemente novos recordes históricos. Esse tipo de ação de preço pode parecer contraintuitivo, mas não é incomum em períodos de crise.

O ouro alcançou um recorde histórico de US$ 5.595 por onça em 29 de janeiro. Em fevereiro, os preços caíram para abaixo de US$ 5.000, mas voltaram a se aproximar dessas máximas em março, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. O ataque ocorreu em um sábado e, no início da segunda-feira seguinte, o ouro já havia superado os US$ 5.400. Naquele momento, tudo indicava que o ouro estava cumprindo seu papel como ativo de refúgio seguro.

Entretanto, US$ 5.418 representou a máxima mensal em 2 de março. A partir daí, ocorreu uma forte queda: o ouro recuou US$ 1.319, atingindo a mínima mensal de US$ 4.099 em 23 de março, antes de encerrar o mês em US$ 4.668,06 — uma redução de US$ 611, equivalente a 11,6% no período. Há indícios de que um fundo pode estar se formando, embora a volatilidade ainda seja elevada.

É compreensível que investidores tenham ficado desapontados com o desempenho do ouro em um mês marcado por turbulências globais. A pressão de venda superou tanto a demanda por ativos de proteção quanto as compras realizadas por bancos centrais. Dito isso, esse tipo de ação de preço não é incomum quando visto em um contexto histórico.

O ouro caiu drasticamente no início da crise financeira em 2008 e novamente durante os estágios iniciais da pandemia em 2020. Em ambos os casos, a reação inicial foi impulsionada por necessidades de liquidez, taxas crescentes e um dólar americano mais forte. Uma dinâmica parecida foi observada após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Na ocasião, o petróleo bruto ultrapassou os US$ 100 por barril, contribuindo para taxas de juros mais elevadas e um dólar mais forte; após uma breve valorização, o ouro recuou cerca de 18%.

Embora cada um desses períodos tenha sido moldado por diferentes condições subjacentes, eles ilustram que o ouro pode apresentar volatilidade durante os estágios iniciais de grandes perturbações globais.

A crise atual traz um novo choque no petróleo e eleva o nível de risco geopolítico. O aumento dos preços do petróleo intensificou as preocupações com a inflação e contribuiu para a elevação das taxas de juros, uma postura mais rígida do Federal Reserve e um dólar americano fortalecido. Essas forças tendem a pesar sobre o ouro, principalmente no curto prazo, e podem ser amplificadas por negociações sistemáticas e orientadas por algoritmos.

Ao mesmo tempo, o ouro acumulou ganhos expressivos desde 2024, de modo que algum nível de realização de lucros é esperado. Saídas significativas de ETFs de ouro indicam que investidores estão realizando lucros ou buscando maior liquidez; além disso, o ouro frequentemente funciona como fonte de liquidez em momentos de estresse generalizado nos mercados.

Os bancos centrais têm sido um importante motor da demanda por ouro, embora essa atividade provavelmente tenha desacelerado durante a turbulência recente. Alguns países podem priorizar a liquidez em momentos de estresse. A Turquia, por exemplo, teria vendido ou realizado operações de swap com ouro em março para sustentar sua moeda. Vários Estados do Golfo também estiveram entre os maiores compradores nos últimos anos, e sua atividade pode flutuar no curto prazo.

Quando as condições se estabilizarem, é provável que a demanda do banco central se normalize. Enquanto isso, o Conselho Mundial do Ouro informa que países como Indonésia, Guatemala e Malásia continuam realizando compras, incluindo tanto participantes novos quanto recorrentes. A tendência mais ampla de diversificação de reservas, especialmente em relação ao dólar americano, segue preservada.

Consideramos positivo que o nível de US$ 4.000 tenha sido sustentado, mesmo diante do aumento das taxas de juros, da valorização do dólar, das saídas de recursos de ETFs e das incertezas sobre a atuação dos bancos centrais. Mesmo após a queda registrada em março, o ouro ainda acumula alta de US$ 349, equivalente a 8,0% no ano.

No longo prazo, à medida que o conflito atual seguir seu curso, o cenário global tende a voltar a um padrão já conhecido de incerteza. Os Estados Unidos ainda enfrentam déficits elevados e custos crescentes para o serviço da dívida, enquanto diversos países seguem avançando na redução da dependência do dólar. Os preços mais altos do petróleo também apresentam riscos para o crescimento econômico. Dentro desse contexto, a tese de longo prazo para o ouro permanece sólida.

As ações de mineradoras de ouro recuaram acompanhando o preço do metal, com o índice MarketVector Global Gold Miners (MVGDXTR)1 registrando uma queda de 21,4% em março. Ainda assim, o índice acumula alta de 5,3% no ano. Apesar da volatilidade, para as mineradoras de ouro, o cenário permanece praticamente inalterado.

As mineradoras de ouro continuam lucrativas aos preços atuais?

Com os níveis atuais do ouro, a lucratividade segue elevada. O ouro na faixa de US$ 4.000 ainda sustenta investimentos em crescimento, recompra de ações e pagamento de dividendos. As margens operacionais permanecem sólidas, com os Custos Totais de Sustentação (AISC) em torno de US$ 1.867 por onça, segundo o Scotiabank.

Uma análise mais abrangente considera os Custos Totais, que englobam impostos, capital de crescimento, exploração, dividendos, juros e despesas gerais e administrativas. O Scotiabank estima esses custos em cerca de US$ 3.525 por onça. Impostos e royalties representam a maior parcela desses custos e, em grande parte, estão fora do controle das empresas.

A exploração é uma área em que as empresas têm flexibilidade e os gastos aumentaram significativamente. De acordo com a S&P Global, a exploração em minas atingiu um recorde em 2025, com alta de 45%, enquanto os orçamentos totais de exploração aumentaram 11%. Caso isso se converta em aumento de produção nos próximos anos, será um ponto importante de acompanhamento.

Espera-se que o aumento dos preços do petróleo eleve os custos, embora o impacto possa ser mais moderado do que muitos antecipam. A exposição à energia varia conforme a operação, sendo minas a céu aberto e em regiões remotas mais dependentes de diesel; ainda assim, o combustível costuma representar cerca de 7% do AISC. Estimativas da BMO Capital Markets indicam que os custos podem subir entre 10% e 20% caso os preços do petróleo dobrem, assumindo ausência de hedge.

Na prática, muitas mineradoras utilizam hedge para custos de combustível e mantêm estoques, o que pode retardar e suavizar os efeitos da alta dos preços. Por exemplo, a Kinross Gold Corp. (4,31% dos patrimônios líquidos da estratégia em 31 de março de 2026) indicou uma sensibilidade de aproximadamente US$ 3 por onça para cada variação de US$ 10 por barril no petróleo, considerando hedge e diferenças regionais de preços.

Embora não haja registro de escassez, interrupções prolongadas em rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, podem gerar desafios, especialmente em partes da África e da Ásia. Ainda assim, uma parcela relevante da produção está concentrada nas Américas e na Austrália, onde o fornecimento de energia tende a ser mais estável.

Neste momento, não se espera mudanças significativas nas projeções de lucros do setor de ouro em decorrência do recente choque no petróleo. O ouro e as ações de mineradoras sofreram pressão, mas, quando a atual fase de volatilidade diminuir, os mesmos fatores que sustentaram o ouro acima de US$ 5.000 devem continuar presentes.

1 O MarketVector Global Gold Miners Index (MVGDXTR) acompanha o desempenho geral das empresas envolvidas no setor de mineração de ouro.

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